Beleza que encanta, riscos que matam: em menos de cinco anos, seis pessoas morreram na cascata de São Roque
Apesar das placas de aviso, barreiras improvisadas e do histórico de tragédias, a cascata de São Roque na divisa entre São Marcos e Caxias do Sul segue atraindo milhares de visitantes a cada verão; responsabilidades emergem em alerta ao poder público, proprietários e frequentadores.
Cascata de São Roque, na divisa entre São Marcos e Caxias do Sul: cenário de beleza extraordinária que atrai visitantes, mas que reúne histórico de afogamentos e condições naturais perigosas. Foto: São Marcos Online.
A Cascata de São Roque, no interior de São Marcos, é um daqueles lugares que parecem saídos de um cartão-postal: água, paredões de pedra, mata fechada, poços profundos e quedas d’água que impressionam. Mas esse mesmo encanto, que atrai milhares de pessoas a cada verão, vem acompanhado de um histórico de tragédias que se repete ano após ano.
Levantamento do São Marcos Online (SMO) realizado a partir de registros jornalísticos publicados desde 2021 mostra que ao menos seis pessoas morreram na cascata em menos de cinco anos, número que reforça o risco extremo do local e a necessidade urgente de discutir responsabilidades, prevenção e estrutura mínima de segurança.
Entre as mortes mais recentes registradas estão dois jovens estrangeiros, um haitiano e um angolano, que perderam a vida em novembro de 2024; um homem de 27 anos, Allan Chaves de Araújo, encontrado sem vida em novembro de 2025; e ao menos outras três ocorrências fatais em 2021, todas atendidas pelos Bombeiros.
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Placas, proibições e barreiras não adiantaram
Após os episódios fatais de 2021, o proprietário da área, que é privada, e a Prefeitura de São Marcos instalaram placas de alerta, informando sobre o risco de afogamento, a profundidade do poço, a força da correnteza e proibindo o acesso. Em 2024, após a morte dos dois jovens universitários, o proprietário chegou a bloquear os acessos com troncos de madeira, na tentativa de impedir a entrada de banhistas.
Nada disso, porém, surtiu efeito prático.
Como mostram reportagens do SMO e relatos de moradores, a cada verão milhares de pessoas seguem entrando, contornando barreiras, ignorando sinalizações e se arriscando em um ponto de grande profundidade, onde há redemoinhos, queda brusca de nível e pedras escorregadias, fatores que tornam o banho extremamente perigoso, mesmo para quem sabe nadar.
Moradores afirmam que finais de semana quentes chegam a transformar o local em um “balneário improvisado”, sem qualquer estrutura, fiscalização ou controle.
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Um território no limite: divisa, propriedade privada e acesso livre
A cascata fica exatamente na região limítrofe entre São Marcos e Caxias do Sul, o que historicamente gerou dúvidas entre frequentadores sobre “de quem é o lugar” e quem tem responsabilidade sobre o uso e a segurança.
A área em si é particular, registrada em propriedade privada, mas o acesso se dá por estradas rurais amplamente utilizadas, algumas municipais, outras vicinais, com trechos que, de acordo com georreferenciamento, cruzam áreas de divisa entre os dois municípios. A falta de definição clara de responsabilidade operacional (fiscalização, controle, bloqueio de entrada, instalação e manutenção de placas, podas e acesso) cria um vácuo de ação efetiva.
Ao mesmo tempo, o Corpo de Bombeiros, unidades de saúde e forças de segurança são acionados sempre que há ocorrências, mas somente depois das tragédias terem acontecido.
Perguntas que escorrem pelas águas:
- Por que as mortes se repetem?
- Quem deve agir?
- O que a população precisa saber?












