Em um movimento de união histórica, a cidade de São Marcos sediou uma audiência pública para debater a grave crise que ameaça extinguir a cultura do alho no Rio Grande do Sul. O encontro, liderado pelos deputados estaduais Elton Weber e Marcos Vinícius, reuniu produtores, lideranças sindicais e autoridades de diversas cidades da região, como Vacaria, Flores da Cunha, Antônio Prado, Caxias do Sul e Farroupilha, todos focados em um objetivo comum: proteger a produção nacional contra a concorrência desleal estrangeira.
O declínio da "Capital do Alho"
Durante a audiência, o prefeito de São Marcos, Volmir Rodrigues, relembrou o protagonismo do município, que já foi o maior produtor de alho do estado e referência nacional. Atualmente, a cultura está "definhando", restando apenas cerca de 5% da área plantada que existia anos atrás, devido à falta de fiscalização e à entrada descontrolada de produto importado. Franquiele Motter, presidente da Associação Gaúcha dos Produtores de Alho (ACAPA), apresentou dados alarmantes, mostrando que o estado já teve 4.000 hectares plantados nos anos 90, mas a tendência é que esse número caia para apenas 500 hectares em 2027.
A ameaça do "dumping" argentino e chinês
O ponto central da discussão foi a prática de dumping, especialmente por parte da Argentina e da China. Segundo a ACAPA, nos últimos dez anos, o alho argentino entrou no Brasil com preços abaixo do seu próprio custo de produção em sete desses anos. "O país vizinho declara um custo e vende abaixo dele para eliminar a concorrência", explicou Franquiele. Além disso, o setor enfrenta dificuldades com o alho chinês, que chega ao mercado brasileiro através de liminares judiciais que burlam as tarifas de proteção.
Impacto social e econômico na região
A crise não afeta apenas os cofres dos produtores, mas todo o tecido social da Serra Gaúcha. Foi destacado que a perda de rentabilidade gera o êxodo rural, o fim da sucessão familiar e o endividamento das famílias. Estima-se que a redução da área plantada no Rio Grande do Sul tenha deixado de movimentar cerca de R$ 8 milhões anuais nas comunidades locais. Representantes de sindicatos de Caxias do Sul, Flores da Cunha, Antônio Prado e Farroupilha reforçaram que o alho é fundamental para a diversificação das pequenas propriedades e para a manutenção dos jovens no campo.
Próximos passos: A "Carta de São Marcos"
Como encaminhamento prático, foi anunciada a criação da "Carta de São Marcos", um documento que sintetiza as demandas da região para ser entregue em Brasília. Entre as ações imediatas, estão agendadas reuniões para o dia 30 de junho e 1º de julho, na Câmara de Comércio Exterior (CAMEX) e no Ministério da Agricultura, para cobrar mecanismos de controle de importação e o combate às práticas desleais de comércio.
"Não estamos pedindo ajuda para sobreviver por sermos poucos, mas para retomar uma área que já foi nossa e que hoje sustenta famílias argentinas enquanto as nossas sofrem", concluiu a presidente da ACAPA. A mobilização em São Marcos marca o início de uma ofensiva política para garantir que a produção de alho volte a ser viável e motivo de orgulho para a região.


