Chegar à final de um prêmio nacional já é motivo de celebração. Repetir esse feito, em meio a centenas de projetos de todo o Brasil, confirma que a inovação pedagógica faz parte da rotina da Escola de Educação Infantil Pintando o Se7e, de São Marcos.
Pelo segundo ano consecutivo, a instituição está entre os cinco finalistas do Prêmio Escolas que Inspiram, promovido pelo Sistema SAS de Ensino. Nesta sétima edição, o reconhecimento veio com o projeto "Leitura que Cuida", uma iniciativa que transformou a espera por atendimento na Secretaria Municipal da Saúde em um espaço de incentivo à leitura e convivência.
O feito ganha ainda mais relevância porque a rede do SAS reúne mais de duas mil escolas em todo o país. Nesta edição, mais de 430 projetos foram inscritos e apenas cinco chegaram à fase final na categoria Educação Infantil. A Pintando o Se7e é uma das representantes do Rio Grande do Sul.
Mais do que disputar um prêmio, as educadoras destacam que o reconhecimento evidencia um trabalho construído diariamente dentro da escola e que envolve professores, famílias, estudantes e a comunidade.
Uma ideia que nasceu ouvindo as famílias

O "Leitura que Cuida" não surgiu de um planejamento para concorrer a um prêmio.
A semente foi plantada durante uma feira literária realizada na escola. Cada família foi convidada a produzir um livro contando sua própria história. A atividade despertou o entusiasmo dos pais, que passaram a pedir que a escola ampliasse as ações de incentivo à leitura.
Foi então que uma experiência cotidiana deu novo rumo ao projeto.
Enquanto aguardava atendimento na Secretaria Municipal da Saúde, uma das professoras percebeu que todas as pessoas estavam concentradas nos celulares.
"Chegou uma hora que eu disse: 'Meu Deus, não tem mais nada no celular. A gente faz o quê agora?'. Pensei: 'Se tivesse um livro para ler seria tão mais fácil'. Daí juntou o que os pais pediram com essa situação que eu vivi e surgiu a ideia de levar livros para a comunidade."
Nascia ali o "Leitura que Cuida".
Livros para transformar o tempo de espera

A mobilização rapidamente envolveu toda a escola.
As famílias doaram mais de 90 livros, um pai confeccionou uma estante utilizando pallets e os próprios alunos pintaram e decoraram a estrutura.
As crianças ainda criaram marcadores de páginas ilustrados, escreveram mensagens sobre o cuidado com os livros e participaram de todas as etapas do projeto.
Todo esse material foi instalado no segundo andar da Secretaria Municipal da Saúde, onde permanece à disposição da população.
Segundo as professoras, a proposta vai além de incentivar a leitura.
"Hoje em dia é a vida da gente nesse celular. Se tu tiver aqueles minutinhos para parar e ler um livro, já faz diferença. Tanto que o nosso projeto é 'Leitura que Cuida'."
A iniciativa também contempla idosos e pessoas que muitas vezes permanecem longos períodos aguardando atendimento.
"Tem pessoas que não têm acesso ao celular ou simplesmente ficam esperando. Elas pegam um livro, olham as imagens, passam o tempo. Isso também impacta as pessoas de mais idade."
Crianças protagonistas

Um dos diferenciais apontados pelas educadoras é que o projeto não foi executado para as crianças, mas com elas.
Os alunos criaram livros, ilustraram histórias, decidiram como seria a pintura da estante e participaram da construção dos marcadores de páginas.
"Eles são protagonistas da própria história deles. O desenho é deles. Se eu fizer, não vai ficar aquilo. É a autenticidade deles."
Para a equipe pedagógica, o trabalho também reforça um hábito cada vez mais raro: imaginar.
Ao invés de apenas assistir às histórias prontas nas telas, as crianças são incentivadas a ouvir narrativas, criar personagens, imaginar cenários e até questionar os detalhes dos contos clássicos.
"Primeiro eu contei a história. Depois eles assistiram. Aí disseram: 'Prof., eu não pensei que era assim'. Olha a imaginação. Hoje está tudo pronto. Vai lá e assiste. Mas e a imaginação?"
Um pedido que veio das famílias

Durante a entrevista, as professoras revelam que um dos retornos mais marcantes veio justamente dos pais.
Segundo elas, muitas famílias reconhecem que o hábito da leitura vem sendo substituído pelo uso constante das telas e passaram a pedir que a escola ajudasse a resgatar esse costume.
"Os pais nos falam: 'Prof., vocês tinham que proporcionar mais isso de leitura, incentivar mais'. A gente incentiva as crianças, mas acaba entrando também na questão das famílias."
Esse movimento, segundo a equipe, reforça que o projeto ultrapassou os muros da escola e passou a influenciar o cotidiano das famílias.
Reconhecimento que se repete
A classificação deste ano também confirma a consistência do trabalho desenvolvido pela Pintando o Se7e.
Durante a entrevista, as educadoras lembram que a escola já havia conquistado destaque nacional anteriormente. Em uma edição anterior do prêmio, a instituição chegou à fase decisiva e, em outro ano, um projeto da escola foi o vencedor da premiação. Agora, novamente, São Marcos volta a figurar entre os cinco melhores projetos do país.
A etapa final acontecerá durante o Fórum de Mantenedores do Sistema SAS, em São Paulo, entre os dias 27 e 29 de agosto, quando será anunciado o vencedor nacional.
Independentemente do resultado, as professoras acreditam que o maior prêmio já foi conquistado.
A biblioteca permanece disponível para a comunidade, centenas de pessoas já utilizaram o espaço e as crianças levam consigo a certeza de que podem transformar a realidade ao seu redor.
"Hoje eles estão fazendo história. Daqui a vinte anos vão poder contar que ajudaram a construir uma estante de livros, levaram o nome de São Marcos para o Brasil e fizeram parte de um projeto que nasceu das mãos deles."


