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Operação Ascaris: testemunha detalha ao SMO como funcionaria estrutura investigada por desvio de doações e cita papel de servidor de São Marcos

Testemunha ocular e também investigada detalha ao São Marcos Online como funcionaria a estrutura investigada pelo MPRS e GAECO, cita o papel do servidor municipal Osmar Cioato, relata uso de galpões públicos em São Marcos, separação de produtos para venda e movimentação de altos valores após as enchentes de 2024.

https://youtu.be/8QKYau7MaMs
A entrevistada, que também é investigada no caso, relata que participou do carregamento, triagem e movimentação dos materiais durante meses.

Enquanto milhares de famílias gaúchas tentavam reconstruir a vida após perder casas, móveis e memórias nas enchentes históricas de 2024, caminhões carregados de doações cruzavam o Rio Grande do Sul diariamente levando roupas, alimentos, água, medicamentos e produtos enviados de diversas partes do Brasil e até do exterior. 

Parte desse material, segundo uma testemunha ocular ouvida com exclusividade pelo São Marcos Online, acabou entrando em uma engrenagem que hoje é alvo de uma das mais delicadas investigações surgidas no pós-tragédia gaúcha. Uma estrutura que, conforme os relatos obtidos pelo SMO e as investigações conduzidas pelo Ministério Público, envolveria triagem de produtos, retenção de itens considerados valiosos, armazenamento em galpões, comercialização de doações, movimentações financeiras em contas de terceiros e até uso de estruturas ligadas ao poder público em São Marcos. (Veja vídeo completo com entrevista, no final da reportagem ou no link).

No centro dos relatos aparece o nome do servidor municipal Osmar Cioato, funcionário concursado da Secretaria Municipal da Agricultura e vice-presidente da ONG investigada.

A operação que colocou São Marcos no mapa da investigação

Equipe do GAECO e MPRS durante cumprimento de mandados no âmbito da Operação Ascaris. Foto: MPRS/Divulgação.

A investigação ganhou dimensão estadual na manhã de 4 de dezembro de 2025, quando o GAECO (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) deflagrou a Operação Ascaris. O nome da ofensiva faz referência a um verme parasita, numa alusão ao suposto aproveitamento da tragédia das enchentes para obtenção de vantagens ilícitas.

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Naquele dia, agentes cumpriram oito mandados de busca e apreensão em cidades da Serra Gaúcha, entre elas Caxias do Sul, Boa Vista do Sul e São Marcos. Cerca de R$ 2 milhões foram bloqueados judicialmente, toneladas de materiais acabaram apreendidas e duas pessoas foram presas em flagrante por armazenamento e comercialização irregular de medicamentos.

Em São Marcos, dois endereços ligados a Osmar Cioato foram alvo das diligências.

Mas o nome do servidor já vinha sendo citado muito antes da operação.

Ainda em 2024, o São Marcos Online começou a receber relatos sobre movimentações consideradas incomuns em estruturas utilizadas no município. As denúncias falavam em caminhões chegando e saindo durante madrugadas, grande quantidade de materiais armazenados e intenso fluxo de cargas nas chamadas câmaras frias.

Na época, a reportagem esteve no local e confirmou o armazenamento de toneladas de donativos. Havia caixas empilhadas, materiais ocupando grandes espaços internos com roupas, calçados, água e produtos de higiene.

Questionado na época, o então prefeito Evandro Kuwer informou ao SMO que o espaço estava cedido em comodato à ASSUCAF, associação de fruticultores locais presidida por um tio de Osmar Cioato. O presidente da entidade confirmou ao jornal que Osmar havia solicitado o espaço para armazenamento das doações ligadas à ONG.

Naquele momento, Osmar afirmou ao SMO que os materiais pertenciam a uma ONG e negou irregularidades.

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“São Marcos virou um estoque da ONG”

Câmaras frias do município de São Marcos serviam de entreposto durante meses. Foto: São Marcos Online/Especial.

Agora, meses após a Operação Ascaris, uma testemunha que participou diretamente da estrutura descreve ao jornal como, segundo ela, o sistema funcionava internamente.

“São Marcos virou um estoque da ONG”, resume.

A entrevistada, que também é investigada no caso, relata que participou do carregamento, triagem e movimentação dos materiais durante meses. Segundo ela, no início da tragédia parte significativa das doações realmente chegou aos atingidos.

No começo ajudou muita gente. Isso eu não posso negar.

Testemunha

Mas a lógica da operação teria mudado rapidamente.

As cargas chegavam principalmente da região de São Paulo, além de materiais enviados dos Estados Unidos. Caminhões descarregavam caixas que eram abertas uma a uma. Tudo passava por triagem.

“Nada era simplesmente distribuído.”

Nada era simplesmente distribuído.

Testemunha

Perfumes, cosméticos, roupas importadas, produtos infantis, utensílios novos e mercadorias ainda embaladas seriam separados. Segundo o relato, os itens considerados mais valiosos eram retidos.

Tudo que era bom ficava.

Testemunha

Já os materiais considerados sem valor comercial eram classificados internamente como “descartes”.

Eles sempre doavam o que não queriam mais.

Testemunha

O papel de Osmar e a logística em São Marcos

Servidor público em espaço com roupas e itens doados, em espaço locado para instalação de brechó  em São Marcos: Foto: São Marcos Online/Especial.

Conforme os galpões utilizados em Caxias do Sul foram lotando, parte significativa das cargas teria sido transferida para São Marcos. Segundo a testemunha, Osmar Cioato possuía acesso livre aos depósitos, coordenava movimentações e tinha autonomia sobre parte da logística.

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Aconteceu tudo sob os cuidados dele. Ele sabia de tudo.

Testemunha

Ela afirma ainda que o próprio servidor teria se referido a si mesmo algumas vezes como “subchefe” da estrutura.

O depoimento obtido pelo SMO descreve uma engrenagem que começaria com a chegada das cargas, seguiria pela triagem dos produtos e pela separação do que possuía maior potencial comercial. Parte dos materiais era armazenada em São Marcos e, segundo a testemunha, os melhores produtos acabavam destinados aos brechós ligados à ONG, enquanto os chamados “descartes” eram posteriormente doados.

Um dos trechos inéditos da entrevista revela que a estrutura investigada pretendia expandir as vendas para São Marcos. Segundo a investigada, Jéssica Mantelli (presidente) e Osmar Cioato (vice-presidente da ONG) planejavam abrir um brechó no município em 2025. Uma sala já havia sido alugada, roupas já tinham sido levadas ao local e parte da estrutura estava sendo organizada. O projeto, porém, acabou interrompido após desconfianças internas.

Ela não confiava nele para gerir aqui.

Testemunha

Outro ponto relatado envolve uma caminhonete que, segundo a testemunha, teria sido adquirida com dinheiro oriundo da operação da ONG e colocada em nome de Osmar Cioato.

Água vencida, desperdício e materiais acumulados

Entre os materiais encontrados, medicamentos vencidos e fraudas. Foto: São Marcos Online/Especial.

A entrevistada também descreve cenas de desperdício que teriam ocorrido nos depósitos. Segundo ela, medicamentos encontrados posteriormente pelo Ministério Público não chegaram vencidos aos galpões.

Aquilo venceu lá dentro.

Testemunha

Ela afirma que havia resistência em distribuir determinados materiais.

Ela preferia deixar vencer do que doar.

Testemunha

Águas minerais teriam permanecido armazenadas até vencer. Lenços umedecidos, segundo o relato, tiveram validade raspada. Fraldas ficaram estocadas e parte dos produtos acabou descartada no lixo.

Tinha coisa do chão até o teto.

Testemunha

Outro ponto delicado envolve o suposto uso de estrutura pública. A testemunha afirma que Osmar teria utilizado caminhão da prefeitura para transportar materiais ligados à ONG já durante a nova administração municipal, em 2025. Segundo ela, o veículo teria sido usado para levar água, calçados e outros produtos armazenados em São Marcos.

Luxo, movimentações financeiras e denúncias

Camionete comprada para a ONG está em nome  de Osmar Cioato. Foto: São Marcos Online/Especial.

Talvez nenhum trecho do depoimento represente tanto o contraste da investigação quanto a descrição da mudança no padrão de vida da presidente da ONG, Jéssica Mantelli.

Segundo a testemunha, antes das enchentes ela enfrentava dificuldades financeiras.

Ela não tinha dinheiro nem para pagar corrida de táxi.

Testemunha

Depois, conforme o relato, vieram caminhonete quase zero, mega hair de R$ 10 mil, viagens, restaurantes caros, caixas fechadas de espumante, compras em grande quantidade e hospedagens em suítes.

As torneiras ficaram abertas

Testemunha

Enquanto isso, segundo a investigada, parte das doações permanecia acumulada nos depósitos.

A testemunha afirma hoje acreditar que foi manipulada dentro da estrutura.

Eu fui uma laranja.

Testemunha

Ela relata que passou meses realizando pagamentos, fazendo transferências, emprestando máquina de cartão e movimentando recursos ligados à operação.

Na minha conta entrou quase meio milhão.

Testemunha

Segundo ela, tudo mudou após procurar um advogado para cobrar salários atrasados.

Ele me disse: o que vocês estavam fazendo era crime.

Testemunha

A investigada afirma que, após buscar ajuda em órgãos brasileiros sem obter retorno, conseguiu contato com pessoas ligadas à embaixada americana, já que parte das doações vinha dos Estados Unidos. Segundo ela, isso antecedeu o avanço das investigações que culminaram na Operação Ascaris.

Parte da investigação tramita sob segredo de justiça.

O silêncio dos investigados e a investigação em andamento

Investigação segue em andamento pelo MPRS e GAECO. Foto: MPRS/Divulgação.

Antes da publicação desta reportagem, o São Marcos Online procurou Jéssica Mantelli, presidente da ONG Per Amore, e Osmar Cioato, vice-presidente da entidade e servidor municipal de São Marcos. Ambos responderam ao jornal, mas preferiram não se manifestar sobre o caso.

O atual prefeito de São Marcos, Volmir Rech, reafirmou ao SMO, no início no ano, que a prefeitura somente deverá tomar medidas administrativas mediante manifestação oficial do Ministério Público. Segundo ele, até o momento, o município não recebeu notificação formal sobre eventual responsabilização do servidor.

O Ministério Público segue investigando movimentações financeiras, lavagem de dinheiro, uso de contas de terceiros, apropriação indébita, comercialização de doações e eventual uso indevido de patrimônio público.

A testemunha afirma possuir prints, comprovantes, mensagens e detalhes operacionais da estrutura. Ela própria também é investigada, mas ainda não depôs.

Em meio à maior tragédia climática da história do Rio Grande do Sul, doações enviadas por pessoas de diferentes estados e até do exterior cruzaram o país para ajudar famílias que haviam perdido tudo. Agora, parte desse material está no centro de uma investigação que mistura solidariedade, suspeitas de enriquecimento ilícito, estruturas públicas e uma rede de personagens que colocou São Marcos no mapa da Operação Ascaris.
 

Relembre o caso:

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