Antes de tudo, quero deixar bem claro o quão difícil foi fazer esse texto. Em parte por que a responsabilidade é grande, mas também porque em qualquer idioma faltariam palavras que descrevessem de forma precisa uma experiência tão enriquecedora. Todo mundo que tenha algum interesse em viajar já leu sobre quanto uma experiência no exterior é válida e significativa, seja para a carreira ou para crescimento pessoal, então minha missão aqui é ir além do óbvio: quero contar o que gostaria de ter lido antes de embarcar nessa viagem que mudou minha vida. Por mais que cada um vivencie o seu de uma forma única, aqui vão alguns pontos que acho importante abordar.
Não importa quanto tempo se fique fora do país. As mudanças acontecerão e não serão poucas. Aprendi a desafiar números porque é incrível o quanto amadureci em pouco mais de um mês. A gente descobre que sabe tanta coisa, desde lavar a própria roupa até lidar com a solidão, ou a se comunicar numa língua que acha que não vai dar conta.
É um pouco apavorante, mas também uma delícia a sensação de ser um completo estranho, ao pisar o pé num país pela primeira vez. Principalmente para quem mora em cidade pequena, a certeza de poder pagar o maior mico do Universo em outras terras é libertadora. Dentro da lei, você pode fazer praticamente tudo que quiser e as pessoas não vão nem reparar. Vá ao mercado de pijama ou de casaco de pele... Ninguém se importa, e a vida se torna bem mais leve quando a gente não tem medo do julgamento alheio.
Passamos uma vida toda convivendo com pessoas, mas foi no intercâmbio que eu me dei conta da complexidade do ser humano. Aprendi a confiar em estranhos, em coisas rotineiras como quando indicavam o próximo ônibus até em situações extremas, como quando mudei os planos de um recém conhecido ao contar que havia sido furtada em outro país.
Falando nisso... Espírito aberto. Nem tudo vai sair como se planeja. Fiz passeios à noite, no frio e na chuva. Tive que retornar ao mesmo lugar três vezes para conseguir algumas fotos razoáveis. Cheguei em alguns outros quando já estavam fechados e não teria tempo para retornar. Faz parte da experiência também.
Pequena observação sobre a língua local. Alguns fatos me fazem, como linguista, repensar o que é fluência, já que mais de uma vez vi meu professor em dúvida a respeito de alguma expressão. Pude comprovar que mal-entendidos acontecem com todos, mesmo com falantes nativos: é tranquilizante estar no aeroporto e ouvir um americano confundir leave e live. A gente sorri internamente e tem vontade de dar um abraço de consolação, estamos todos no mesmo barco.
Ficar algum tempo fora te força a ser criativa. Nas aulas, na maneira de se vestir, nas horas de aperto. O sapato vai te machucar uma hora, e provavelmente quando não há um band-aid por perto e o mar está azul demais para não entrar na água. Use os recursos que tiver. Por mais que tenha sido prevenida com uns pares de USB extra, o celular vai teimar em carregar apenas com um deles e uma tomada específica. É um pouco de adaptação e muito de desapego.
Falei em desapego? Escolhas. Você tem um tempo limitado e um mundo novo a descobrir. Balada a semana toda? Pode! Mas de manhã cedo tem aula. Voltar mais cedo que a turma ou faltar alguns dias? Perder algumas horas cozinhando ao invés de passear ou viver de sanduíche e comida congelada? Há um preço a pagar por cada uma das opções. Renúncia. O que nos leva ao último ponto...
Leveza. De corpo, alma e bagagem. É uma de minhas citações preferidas, “se você quer voar, precisa abrir mão de tudo que te pesa.” Leveza para os dias difíceis, leveza porque o mais importante a gente não traz de volta na mala, mas na memória e no sorriso estampado toda vez que algum detalhe relembrar o lugar que roubou nosso coração. E pra essa bagagem, felizmente, não é cobrada taxa por excesso.
Não é sobre uma língua. É sobre o mundo e as pessoas espalhadas por ele, que de alguma forma cruzaram teu caminho com algum propósito. É sobre o vento que te bateu na cara, sobre ter hospedagem nos quatro cantos do planeta, sobre autoconhecimento e superação. Não tem como voltar indiferente a tudo isso, sem sentir saudade de cada segundo. Esteja pronto para ser permanentemente afetado.
It’s a funny thing coming home. Nothing changes. Everything looks the same, feels the same, even smells the same. Then you realize what’s changed is you. F. Scott Fitzgerald.
“You will never be completely at home again, because part of your heart always will be elsewhere. That is the price you pay for the richness of loving and knowing people in more than one place.” Miriam Adeney





