Família atípica percorre quase 10 mil quilômetros em uma camionete de mais de 30 anos
Pais de autista, residentes em São Marcos, partiram no Natal para visitar familiares no Nordeste do País e retornaram no Ano Novo
Fotos: arquivo pessoal
Uma camionete D-20 ano 1988, mais de 9 mil quilômetros percorridos, estradas cruzando o Sul, o Sudeste e o Nordeste do Brasil e um propósito muito claro: garantir segurança, respeito e bem-estar para Anna Beatriz, de 4 anos, uma criança autista que redefiniu o modo como sua família enxerga o mundo, e também a forma de viajar.
A jornada foi vivida por Renan Urano, 41 anos, comerciante, e Edna Cristina, 42 anos, administradora do lar e do comércio, moradores de São Marcos há 7 anos. Naturais do Norte do país, eles decidiram refazer o trajeto entre Sul e Nordeste de forma totalmente diferente do convencional para passar o Natal e visitar familiares. A família saiu de São Marcos na véspera do Natal e retornou à cidade no primeiro dia de 2026. Em vez de avião, optaram pela estrada. O motivo principal foi Anna Beatriz, diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA), suporte nível 3, aos dois anos de idade.
Segundo a mãe, Cris, como é conhecida, o receio de viajar de avião sempre esteve presente. O medo não era do voo em si, mas da imprevisibilidade. “A gente tinha muito receio de comprar passagens e, no momento do embarque, ela ter uma crise sensorial. O risco de perder as passagens e ainda expor nossa filha a uma situação extremamente estressante nos fez optar pela estrada”, relata.
Anna Beatriz nasceu em 11 de maio de 2021, na Serra Gaúcha, e desde muito cedo passou a exigir cuidados constantes. Ela não pode ficar sozinha em nenhum momento, faz uso de medicações, necessita de estímulos diários e apresenta seletividade alimentar severa, fatores que exigem planejamento rigoroso em qualquer deslocamento. Na estrada, cada detalhe precisou ser pensado.
A família adaptou a camionete D-20 de cerca de 30 anos para que a viagem fosse segura e confortável. Malas rígidas foram acomodadas na caçamba, com vedação contra poeira e água, liberando espaço interno para que Anna pudesse se movimentar. Um cooler acompanhou todo o trajeto, sempre abastecido com iogurtes, frutas e água nas temperaturas que ela já aceita. A cadeira de segurança foi escolhida não apenas pela certificação, mas pelo conforto, para evitar cansaço físico excessivo. Até os banheiros de estrada entraram no planejamento, com um “kit higiene” preparado para minimizar estímulos sensoriais que pudessem desencadear crises.
Mais do que logística, a viagem exigiu uma mudança profunda de mentalidade. “Antes, nossos planos eram lineares. Quando o autismo chegou, parecia que o GPS tinha quebrado. Com o tempo, entendemos que ele apenas recalculou a rota”, conta Cris. Segundo ela, a experiência de ser mãe atípica ensinou a família a celebrar o micro: um contato visual mais longo, uma palavra nova, a superação de uma crise sensorial. “Aprendemos que o tempo dela é o nosso tempo.”
Na prática, isso significou abrir mão de roteiros rígidos. O ritmo da viagem foi ditado pelas necessidades de Anna Beatriz, não pelos destinos turísticos. Paradas inesperadas, pausas longas e mudanças de rota fizeram parte do percurso. “O cronograma perfeito não é o que visita todos os pontos do guia, mas o que respeita o tempo do outro”, resume a mãe.



A viagem também foi emocionalmente intensa. Houve cansaço, momentos de insegurança e diversas vezes em que foi preciso recalcular a rota, literalmente e simbolicamente. Ainda assim, para a família, o saldo foi transformador. “Viajar com nossa filha autista não é sobre o destino, mas sobre o caminho. O sucesso não está em quantos lugares visitamos, mas na alegria que ela sente ao descobrir algo novo — do jeito dela”, afirma Cris.
Ver o mundo pelos olhos de Anna Beatriz, segundo os pais, revelou uma beleza que muitas vezes passa despercebida na pressa do cotidiano. Sons, paisagens, silêncios e pequenas conquistas ganharam outro significado. “Ela nos ensinou que a beleza está nos detalhes”, reforça a mãe.
Ao final da jornada, a família deixa uma mensagem direta a outros pais e mães atípicos: não desistam de viver. “O medo da crise, do olhar do outro e da quebra da rotina é real, mas a capacidade de adaptação dos nossos filhos é ainda maior”, diz Cris. Para ela, respeitar o ritmo da criança, celebrar pequenas vitórias e permitir-se criar memórias são formas de cuidado não apenas com os filhos, mas com toda a família.
A viagem de mais de 4 mil quilômetros entre o Sul e o Norte do Brasil não foi apenas um deslocamento geográfico. Foi um percurso de aprendizado, adaptação e amor, guiado pelo olhar sensível de uma criança autista que, sem saber, se tornou o verdadeiro norte dessa história.












