Enquanto São Marcos mobiliza o poder público, entidades e a comunidade para enfrentar a violência contra a mulher, uma realidade preocupante também se revela nos números locais. Dados divulgados pela Prefeitura e noticiados pelo São Marcos Online neste mês apontam aumento de 50% nos pedidos de medidas protetivas no município, um sinal de alerta que dá ainda mais peso à campanha do Agosto Lilás.
A programação aberta no início do mês colocou o tema no centro do debate local e reuniu a rede de proteção em torno de uma mensagem que vai além de agosto: violência contra a mulher não é assunto privado, não pode ser naturalizada e precisa ser enfrentada antes que novas vítimas sejam silenciadas.
Mas, enquanto cidades como São Marcos promovem campanhas de conscientização e reforçam a importância da informação, uma movimentação em sentido contrário chama atenção nas redes sociais. Vídeos recortados, declarações retiradas de contexto e informações falsas voltaram a ser usados para tentar desacreditar Maria da Penha Maia Fernandes, e, junto com sua história, colocar em dúvida a própria necessidade da lei que leva seu nome.
O contraste é evidente.
De um lado, uma mobilização local diante de dados concretos que mostram a necessidade de ampliar a prevenção, o acolhimento e a proteção. De outro, conteúdos que tentam reescrever uma história já investigada pela Justiça e amplamente documentada, alimentando uma onda de negacionismo justamente no momento em que a Lei Maria da Penha completa 20 anos.
Um alerta que também é de São Marcos
O aumento de 50% nos pedidos de medidas protetivas coloca São Marcos diante de um dado que não pode ser ignorado. A medida protetiva é um dos principais instrumentos previstos pela Lei Maria da Penha para interromper situações de risco e estabelecer restrições ao agressor.
O crescimento dos pedidos não permite, por si só, concluir que a violência tenha aumentado exatamente na mesma proporção. Também pode refletir maior conhecimento sobre os direitos, fortalecimento da rede de atendimento e mais mulheres buscando ajuda e rompendo o silêncio.
Mas qualquer uma dessas leituras reforça a importância da mobilização.
A campanha local, encabeçada pela Prefeitura de São Marcos e apoiada por entidades e pela rede de proteção, ganha relevância justamente por levar o debate para fora dos gabinetes e das delegacias. Informação, prevenção e acolhimento são partes fundamentais do enfrentamento a uma violência que, muitas vezes, começa antes da agressão física e permanece escondida dentro de relações familiares e afetivas.
Violência psicológica, ameaça, humilhação, perseguição, controle da vida financeira e isolamento também podem fazer parte de um ciclo que precisa ser identificado e interrompido.
Mais de 1 milhão de atendimentos no país
A realidade de São Marcos encontra eco nos números nacionais.
Entre janeiro e julho de 2026, o Ligue 180 registrou 1.035.647 atendimentos, alta de 90,8% em relação ao mesmo período do ano passado. No período, foram registradas 98.705 denúncias de violência de gênero, aumento de 15%. A violência psicológica liderou as denúncias, seguida pela violência doméstica e pela violência física. O próprio crescimento da procura pelo serviço, segundo o governo, também está relacionado a uma maior busca por informação e ao rompimento do silêncio por mulheres que antes não procuravam ajuda.
Os números ajudam a colocar em perspectiva o alerta registrado em São Marcos. A violência contra a mulher não é uma estatística distante, restrita aos grandes centros ou a uma realidade que não alcança municípios menores.
Ela está presente nos pedidos de proteção, nos atendimentos da rede pública e nas histórias que, muitas vezes, só chegam ao conhecimento das autoridades quando a situação já se agravou.
É por isso que campanhas como a desenvolvida em São Marcos têm importância prática: informar também é proteger.
Enquanto se combate a violência, tentam desacreditar Maria da Penha
O outro lado dessa discussão é ainda mais preocupante.
Nos últimos dias, voltou a circular nas redes sociais um vídeo recortado de uma entrevista de Maria da Penha. Publicações passaram a usar poucos segundos de sua fala para sustentar falsamente que ela teria admitido nunca ter sofrido agressão do então marido.
A afirmação é enganosa.
O recorte omite o contexto da entrevista e os relatos de violência psicológica, agressões e das tentativas de feminicídio sofridas por Maria da Penha. Ela foi baleada pelo então marido, ficou paraplégica e sobreviveu ainda a outra tentativa de assassinato. O agressor foi condenado pela Justiça.
Não se trata, portanto, de uma simples divergência de interpretação.
É desinformação produzida justamente pela retirada do contexto. Uma declaração fragmentada passa a ser apresentada como se anulasse uma história inteira, as investigações, os processos judiciais e as condenações que se seguiram.
Reportagens recentes também revelaram uma onda mais ampla de ataques e tentativas de desacreditar Maria da Penha e a legislação criada em sua homenagem. O Ministério Público do Ceará identificou a circulação coordenada de conteúdos falsos e ataques contra a ativista, incluindo versões fraudulentas sobre o crime e até a fabricação de documentos falsos.
A estratégia é conhecida: lançar dúvidas sobre fatos comprovados, repetir informações falsas e usar conteúdos verdadeiros, mas retirados de contexto, para produzir uma conclusão que não corresponde aos fatos.
E o efeito vai além da imagem de Maria da Penha.
Quando se tenta desacreditar a mulher que se tornou símbolo da luta contra a violência doméstica, o ataque também atinge a própria compreensão social sobre a violência e a necessidade dos mecanismos criados para proteger as vítimas.
20 anos depois, a lei continua necessária
A Lei Maria da Penha completou 20 anos em agosto de 2026. Duas décadas depois de sua criação, os dados de São Marcos e do país inteiro demonstram que a necessidade de proteção permanece.
E a legislação continua sendo atualizada e interpretada para ampliar sua eficácia. Na semana passada, o Supremo Tribunal Federal decidiu, por unanimidade, que a aplicação da Lei Maria da Penha não depende da existência de vínculo familiar, afetivo ou íntimo entre vítima e agressor. A decisão reconhece que a violência baseada em gênero também pode ocorrer em outras relações e tem repercussão geral, devendo orientar os demais tribunais do país.
A decisão reforça um princípio fundamental: violência contra a mulher não pode ser reduzida à antiga ideia de “briga de casal”.
Ela é um problema social e estrutural, que exige políticas públicas, prevenção, informação e uma rede preparada para acolher e proteger.
Em São Marcos, o aumento de 50% nos pedidos de medidas protetivas ajuda a retirar essa discussão do campo abstrato.
O dado está aqui.
É local.
E acontece no mesmo momento em que o município promove uma campanha para chamar a atenção da sociedade para a importância de reconhecer os sinais da violência e buscar ajuda.
Desinformação também pode fazer parte do problema
Se a violência se alimenta do silêncio, a desinformação pode ajudar a alimentá-lo.
Uma mulher que encontra conteúdos negando ou minimizando casos comprovados pode se sentir ainda mais insegura para denunciar. Uma comunidade exposta repetidamente a versões falsas pode passar a relativizar uma violência que os próprios números mostram ser real.
Por isso, combater a violência também exige responsabilidade com a informação.
É preciso discutir leis, políticas públicas e até eventuais falhas nos mecanismos de proteção, esse debate é legítimo e necessário. Mas discutir não é inventar fatos. Questionar não é recortar declarações para inverter seu sentido. E criticar uma lei não autoriza reescrever a história que levou à sua criação.
O Agosto Lilás de São Marcos, com a participação do poder público e de entidades locais, surge justamente como contraponto a essa lógica.
Diante de um aumento de 50% nos pedidos de medidas protetivas, a resposta não pode ser negar a realidade.
É ampliar a informação.
Fortalecer a rede.
Garantir acolhimento.
E impedir que mentiras, vídeos manipulados e conteúdos fora de contexto façam aquilo que a violência tantas vezes tenta fazer: desacreditar, isolar e calar as mulheres.
Em situações de emergência, a orientação é acionar a Brigada Militar pelo 190. O Ligue 180 funciona 24 horas por dia para orientação, acolhimento e recebimento de denúncias de violência contra a mulher.



