Antes de existir o prédio de alvenaria, antes de a energia elétrica chegar a Pedras Brancas e quando a comunidade ainda começava a se estruturar, havia uma pequena escola de madeira.
Foi em 1926 que Giácomo Sandri, um dos moradores da localidade, idealizou a criação de uma escolinha comunitária para atender as crianças da região. As primeiras aulas foram ministradas pela professora Paulina Soldatelli Moretto. A iniciativa nasceu em um período em que as famílias que haviam chegado à região buscavam também construir as bases para a permanência e o desenvolvimento da comunidade.
Um século depois, a escola que leva o nome de seu idealizador continua funcionando.
A Escola Estadual de Ensino Fundamental Giácomo Sandri, em Pedras Brancas, São Marcos, chega aos 100 anos em 2026 atendendo 96 estudantes das comunidades de Pedras Brancas, São Roque, São Jacó e arredores. São 16 professores e quatro funcionárias, com atendimento no turno da manhã e atuação voltada à Educação do Campo.
A história da instituição, porém, é também a história de uma comunidade que mudou ao longo de diferentes gerações, e que, em momentos decisivos, voltou a se mobilizar para garantir que a escola permanecesse ali.
Uma escola antes do prédio

A criação da escola ocorreu poucos anos depois da construção da primeira capela de Pedras Brancas, em 1924, período em que a comunidade ainda consolidava sua organização.
A primeira escolinha, conhecida como “La Scola”, funcionava em uma estrutura de madeira. Em 1928, o ensino foi oficializado como Escola Coronel Camisão.
A instituição passou por diferentes denominações e prédios nas décadas seguintes. Em 1945, ganhou um novo espaço, com três salas de aula, construído ao lado da nova capela. Em 1948, ocorreu a estadualização, quando passou a ser denominada Escolas Reunidas de Pedras Brancas.
A evolução da escola acompanhou as próprias transformações da localidade.
A energia elétrica chegou em 1949. No ano seguinte, a comunidade construiu sua igreja. Entre 1959 e 1969, diante do crescimento populacional e das mudanças provocadas também pela consolidação da ligação rodoviária pela região, foi construído o prédio de alvenaria inaugurado em 1969.
A escola, que havia começado pequena e em madeira, ganhava uma estrutura compatível com uma comunidade que também crescia.
O nome de Giácomo Sandri

A homenagem ao homem que esteve na origem da instituição veio oficialmente em 1971.
Em 7 de dezembro daquele ano, por decreto da Secretaria da Educação, a escola passou a carregar o nome de Giácomo Sandri, reconhecendo a importância de seu idealizador.
A trajetória de Sandri guarda ainda um dos elementos mais marcantes da história contada pela comunidade: mesmo sem saber ler ou escrever, ele teria percebido a importância de criar um espaço para que as crianças tivessem acesso à educação.
A história produz um contraste que atravessa o centenário: alguém que não teve a oportunidade de estudar ajudou a criar um lugar onde gerações de crianças poderiam fazê-lo.
Ao longo dos anos, a escola também ampliou sua oferta. Em 1979, consolidou-se como Escola Estadual de 1º Grau Incompleto Giácomo Sandri. Em 1991, passou a oferecer da 1ª à 8ª série, abrangendo todo o então ensino de 1º grau.
Em 2000, recebeu a denominação que permanece atualmente: Escola Estadual de Ensino Fundamental Giácomo Sandri.
Quando a comunidade voltou a construir a escola

Se a primeira escola nasceu da iniciativa comunitária, quase sete décadas depois os moradores de Pedras Brancas voltaram a demonstrar que a instituição fazia parte da identidade da localidade.
Em 1999, a comunidade se mobilizou para participar do Orçamento Participativo e conquistou o primeiro lugar na votação, com expressiva participação dos moradores.
O resultado permitiu a ampliação do prédio escolar, que passou a contar com uma área de 979,23 metros quadrados.
A inauguração ocorreu em 29 de setembro de 2001.
Naquele momento, porém, a comunidade não pensava apenas no presente. Durante a inauguração, foi lacrada uma Cápsula do Tempo, reunindo elementos daquele período para que fossem reencontrados no futuro.
Vinte e cinco anos depois, a escola chega ao seu centenário.
A cápsula representa, de certa forma, uma pergunta deixada por uma geração para outra: o que as pessoas de 2001 imaginavam que seria a Giácomo Sandri em 2026?
E, agora, os estudantes que vivem a escola no presente começam a produzir suas próprias respostas para o futuro.
A escola que os alunos estão aprendendo a contar

Para marcar o centenário, os próprios estudantes participaram de projetos relacionados à história da instituição.
A trajetória foi transformada em materiais pedagógicos, como histórias em quadrinhos, cards, maquetes representando diferentes momentos da escola e uma linha do tempo.
O trabalho faz com que a história deixe de ser apenas uma sequência de datas e passe a ser conhecida por quem hoje ocupa as salas de aula.
É também uma maneira de aproximar duas pontas da trajetória da instituição: as crianças que estudaram na pequena escola de madeira em 1926 e os estudantes que, cem anos depois, utilizam uma escola inserida em uma realidade completamente diferente.
A estrutura mudou. A tecnologia mudou. A própria comunidade mudou.
Mas permanece a necessidade que deu origem à escola: oferecer educação às crianças da região.
Cem anos depois
Em 2026, a Giácomo Sandri não é apenas um prédio escolar.
É uma instituição que atravessou mudanças na comunidade, diferentes modelos de ensino, gerações de professores e alunos e momentos em que os próprios moradores precisaram se mobilizar para garantir sua estrutura.
Hoje, são 96 estudantes.
Cada um deles representa uma continuidade daquela iniciativa que começou há um século com uma pequena escola comunitária.
A celebração dos 100 anos terá como tema “100 Anos da Giácomo Sandri: Raízes do passado, sonhos do futuro”. A programação principal ocorre no dia 11 de setembro, às 19h30, no Salão de Pedras Brancas, com um jantar comemorativo, resgate histórico e rifão.
Os ingressos custam R$ 65 para adultos e R$ 35 para crianças de 7 a 12 anos. Crianças de 0 a 6 anos têm entrada gratuita.
Mais do que celebrar uma data, o centenário coloca a comunidade diante da própria história.
Em 1926, uma geração decidiu criar uma escola para o futuro.
Em 2001, outra deixou uma cápsula para ser encontrada pelas gerações seguintes.
Em 2026, são os estudantes de hoje que começam a responder qual será o próximo capítulo.
Porque, depois de 100 anos, a história da Giácomo Sandri ainda não terminou.


