E se, enquanto você corre para dar conta de tudo, a vida estiver
acontecendo sem você? Acordamos com o despertador, seguimos horários, cumprimos compromissos, trabalhamos, cuidamos da casa, dos filhos, dos alunos, da família, dos outros. O relógio determina nossos passos e, muitas vezes, sequer percebemos que estamos vivendo no automático. Fazemos tudo o que precisa ser feito, mas esquecemos de fazer uma pergunta essencial: “E eu? Como estou?”
Em uma sociedade que valoriza tanto a produtividade, a pressa e às conquistas, parar para olhar para si pode parecer perda de tempo. Mas talvez seja justamente o contrário. Talvez cuidar de si seja uma das atitudes mais responsáveis que podemos ter, não apenas por nós mesmos, mas também por aqueles que dependem de nós. Autocuidado não é egoísmo. É consciência.
Prestar atenção em si significa reconhecer quando estamos cansados, respeitar nossos limites, compreender nossas emoções e perceber aquilo que nos faz bem. Significa também permitir-se viver experiências que tragam alegria, afeto, descanso e sentido. Afinal, de que adianta cumprir rigorosamente todos os horários se, no final do dia, não conseguimos lembrar de um único momento em que realmente estivemos presentes?
Vivemos em uma época em que, muitas vezes, confundimos qualidade de vida com quantidade de coisas. Queremos ter mais, produzir mais, conquistar mais e mostrar mais. Entretanto, nem sempre nos perguntamos se estamos sentindo mais. Mais alegria? Mais tranquilidade? Mais amor? Mais conexão com quem somos?
Talvez a vida não esteja pedindo que façamos mais. Talvez esteja pedindo que vivamos melhor.
E isso também interfere diretamente na maneira como cuidamos do outro. É muito difícil oferecer acolhimento quando estamos emocionalmente esgotados. É difícil falar sobre equilíbrio quando vivemos constantemente em desequilíbrio. É difícil orientar alguém sobre como encontrar qualidade de vida quando nós mesmos não conseguimos enxergar qualidade na nossa rotina.
Quando cuidamos de nós, passamos a compreender melhor nossas próprias necessidades e, consequentemente, as necessidades daqueles que estão ao nosso redor. Tornamo-nos mais sensíveis, pacientes e disponíveis. Não porque nos tornamos perfeitos, mas porque aprendemos a olhar para o outro a partir de uma experiência que também conhecemos.
Não basta dizer ao outro o que ele deve fazer. É preciso, antes, compreender o que significa viver aquilo que estamos propondo.
Quem aprende a se escutar consegue escutar melhor. Quem aprende a se respeitar consegue respeitar melhor. Quem experimenta o cuidado consegue oferecê-lo com mais verdade.
Por isso, cuidar de si não significa afastar-se do mundo. Significa preparar-se para estar nele de uma maneira mais inteira.
A vida não pode ser apenas uma sequência de tarefas entre o nascer e o pôr do sol. Não podemos permitir que o relógio determine tudo aquilo que sentimos, desejamos e somos. Precisamos encontrar espaço para amar, conversar, criar, descansar, contemplar, rir, mudar de caminho e simplesmente estar presentes.
Não é sobre ter uma vida perfeita. É sobre sentir que a vida que temos também nos pertence.
Quando aprendemos a viver com propósito e qualidade, aquilo que oferecemos ao outro também se transforma. Já não ajudamos apenas porque precisamos cumprir um papel, uma obrigação ou uma expectativa. Ajudamos porque temos algo verdadeiro para compartilhar.
Talvez seja esse o verdadeiro sentido do autocuidado: não olhar apenas para dentro, mas fortalecer aquilo que existe dentro de nós para que possamos olhar para fora com mais humanidade.
Cuidar de si é, também, uma forma de cuidar do mundo.
Flávia Grison - Professora


