A onda de reclamações contra a RGE provocada por contas de energia elétrica com valores muito acima do habitual também chegou a São Marcos. Levantamento realizado pelo Portal São Marcos Online junto ao Procon municipal aponta nove reclamações formalizadas contra a concessionária somente neste mês de agosto, sem contabilizar consumidores que procuraram o órgão apenas em busca de orientação ou que ainda aguardam a leitura do medidor para formalizar a demanda.
Na consulta realizada pela reportagem no sistema do Procon, os nove registros relacionados à RGE aparecem, no momento da verificação, com a situação de “tratativa não resolvida”. No mesmo período, o sistema apresentava 14 registros de reclamações de consumidores envolvendo diferentes empresas.
Segundo a agente do Procon de São Marcos, Rochele Ascari, o órgão vem recebendo casos de consumidores que questionam aumentos considerados muito acima do padrão de consumo. Ela afirma que alguns dos valores analisados chamaram especialmente a atenção da equipe e que parte das faturas foi encaminhada ao coordenador do Procon de Caxias do Sul, que deverá reunir os casos para encaminhamento aos órgãos reguladores.
Entre os exemplos citados à reportagem está o de uma empresa do setor de avicultura, que normalmente teria uma conta em torno de R$ 1 mil e recebeu uma fatura de aproximadamente R$ 12 mil. Também há o caso de uma consumidora residencial cuja conta teria chegado a aproximadamente R$ 1.989.
Os valores e os casos individuais ainda precisam ser analisados tecnicamente e, por isso, não permitem afirmar, neste momento, que houve erro de faturamento ou cobrança irregular. A avaliação do Procon, entretanto, é de que as diferenças relatadas justificam a contestação e a investigação de cada fatura.
Problema ultrapassa São Marcos
A situação observada no município ocorre em meio a uma mobilização que ganhou proporção regional.
Em Caxias do Sul, o Procon registrou, somente em julho e agosto, 298 solicitações encaminhadas pelo site e 114 protocolos de abertura de processos relacionados às demandas de energia elétrica. Diante do volume, o órgão fiscalizou uma unidade da RGE e autuou a concessionária por demora no atendimento aos consumidores. As reclamações também foram levadas à Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) e à Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon).
Segundo o Procon caxiense, a ANEEL deverá analisar as causas dos aumentos considerados expressivos e promover uma reunião conjunta com a RGE e órgãos de defesa do consumidor.
Em Bento Gonçalves, mais de 119 consumidores procuraram o Procon em 2026 relatando aumentos expressivos nas contas. O órgão afirma ter instaurado mais de 30 processos administrativos contra a concessionária e também acionado o Ministério Público diante da repetição dos relatos.
Em Vacaria, uma análise inicial feita pela Câmara de Vereadores com dez faturas entregues por consumidores apontou aumentos entre 67,30% e 580,95% na comparação entre junho e julho. Em um dos casos, o consumo registrado saltou de 54 kWh para 708 kWh, enquanto a média dos 12 meses anteriores era de 57 kWh. A Câmara passou a articular uma agenda regional com a direção da RGE.
Em Canela, o Procon informou ter recebido 18 relatos de consumidores sobre aumentos nas faturas em 2026.
Os números mostram que a discussão não está restrita a uma única cidade.
Reajuste não explica, sozinho, os maiores aumentos
Para os consumidores residenciais da RGE, a tarifa sofreu reajuste médio de 14,97% a partir de 19 de junho de 2026, conforme a informação divulgada pelos órgãos de defesa do consumidor. Em julho também vigorou a bandeira tarifária amarela, que acrescentou custo à fatura.
O percentual, porém, não significa que todas as contas tenham necessariamente aumentado exatamente 14,97%, já que o valor final também depende do consumo, período de faturamento e demais componentes da fatura.
O que está provocando a mobilização dos Procons são justamente os casos em que o valor cobrado apresenta uma diferença muito superior ao reajuste e aparentemente não corresponde ao histórico de consumo informado pelo consumidor.
A própria RGE, por sua vez, tem atribuído parte das altas ao aumento do consumo no período de inverno e ao reajuste tarifário. A empresa também mantém em seus canais digitais o histórico de consumo dos últimos 12 meses, ferramenta que permite ao consumidor comparar a evolução do consumo em kWh.
O que orienta o Procon de São Marcos
A orientação inicial aos consumidores é conferir a própria fatura e comparar o consumo registrado em kWh com os meses anteriores.
Rochele Ascari também recomenda que o consumidor faça uma verificação do medidor. O procedimento consiste em fotografar a leitura, desligar os equipamentos elétricos por aproximadamente 15 minutos e verificar se a numeração do medidor continua avançando.
Caso haja alteração mesmo com os equipamentos desligados, o consumidor deve comunicar a RGE para que o equipamento seja analisado.
A agente também chama atenção para consumidores da área rural, que devem informar regularmente a leitura do medidor, evitando que o faturamento seja realizado com base em médias quando aplicável.
Nos casos considerados discrepantes, o Procon orienta que o consumidor reúna as faturas, histórico de consumo, fotografias do medidor e protocolos de atendimento antes de formalizar a reclamação.
Procon considera valores relatados preocupantes
Para Rochele, o aumento tarifário autorizado e o maior consumo durante o inverno podem explicar parte da elevação das contas, mas não seriam suficientes para justificar alguns dos valores que chegaram ao órgão.
A agente afirma considerar preocupantes os casos em que a cobrança fica muito acima do histórico e avalia que os consumidores devem buscar a revisão das faturas e, quando necessário, orientação jurídica.
Segundo ela, em situações em que a solução administrativa não ocorre, sua orientação é que o consumidor avalie a possibilidade de buscar a Justiça.



