Setenta e dois anos após a morte de Getúlio Vargas, o presidente da Câmara de Vereadores de São Marcos, Antonio Luiz Brochetto, o Brochetão, utilizou o espaço das Explicações Pessoais da sessão desta segunda-feira, dia 24, para resgatar a Carta-Testamento deixada pelo ex-presidente antes de sua morte, em 24 de agosto de 1954.
No momento em que cada vereador tem liberdade para abordar o tema que considerar pertinente, Brochetto fez uma longa leitura de trechos da carta e, na sequência, estabeleceu uma relação entre o conteúdo escrito por Vargas há mais de sete décadas e questões que, na avaliação dele, continuam presentes no debate político e econômico brasileiro.
Ao iniciar sua manifestação, o vereador afirmou que não poderia deixar passar a data sem registrar os 72 anos da morte de Getúlio Vargas. Em seguida, leu passagens da Carta-Testamento nas quais o então presidente tratava de pressões políticas, interesses econômicos e da defesa do povo brasileiro, especialmente das camadas mais humildes.
Depois da leitura, Brochetto defendeu que o documento histórico merece uma reflexão à luz do cenário atual.
Segundo o presidente da Câmara, ao analisar a carta, seria possível encontrar temas que, na visão dele, permanecem atuais. Brochetto citou especialmente os interesses de grandes grupos econômicos e multinacionais e relacionou a discussão à soberania brasileira e à exploração das riquezas do país.
Na manifestação, o vereador também mencionou Leonel Brizola ao falar sobre interesses estrangeiros e criticou, em sua avaliação, posições favoráveis à exploração de recursos brasileiros por interesses externos. Brochetto afirmou que a defesa da soberania nacional deveria ser objeto de reflexão e disse que questões levantadas por Vargas em sua Carta-Testamento continuam, segundo sua interpretação, presentes no Brasil atual.
A fala ocorreu justamente no dia que marca os 72 anos da morte de Getúlio Vargas. Ao recordar a data, Brochetto não fez apenas uma homenagem histórica. O vereador utilizou o documento deixado pelo ex-presidente como ponto de partida para uma manifestação de conteúdo político, trazendo para a sessão temas como soberania, interesses internacionais e o controle sobre as riquezas brasileiras.
A manifestação também evidencia uma característica do período das Explicações Pessoais: diferentemente da discussão de um projeto específico, o espaço permite que os vereadores escolham livremente os assuntos que desejam levar à tribuna.
No encerramento da leitura, Brochetto chamou atenção para a reflexão que, segundo ele, a Carta-Testamento ainda provoca. Para o presidente do Legislativo são-marquense, as preocupações expressas por Vargas há 72 anos continuam merecendo debate, especialmente quando o assunto envolve quem controla e quem se beneficia das riquezas do país.
Leia a Carta-Testamento de Getúlio Vargas
Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.
Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma.
Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão.
E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.
Rio de Janeiro, 23/08/54 — Getúlio Vargas
A Carta-Testamento foi divulgada após a morte de Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954, e tornou-se um dos documentos mais conhecidos da história política brasileira. O texto citado pelo presidente Antonio Luiz Brochetto durante as Explicações Pessoais é justamente o que relaciona a defesa do povo, as riquezas nacionais e a atuação de interesses econômicos, temas que ele retomou para fazer uma reflexão sobre o Brasil atual.



