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Negócio social: a oportunidade de inovar em sua empresa para um desenvolvimento mais sustentável

Mas em que consiste esse modelo de negócio, quais as vantagens e como implementá-lo?

Quando pensamos em inovação, automaticamente, tendemos a pensar em tecnologia, não é mesmo? E quando pensamos em sustentabilidade, logo temos no imaginário nosso meio ambiente natural, como a fauna e a flora. Atualmente, no entanto, com a crescente demanda dos consumidores por empresas mais responsáveis socioambientalmente, e as obrigações legais provenientes de acordos mundialmente firmados em prol de um desenvolvimento sustentável e formas de consumo mais conscientes, pensar em uma inovação para sua empresa pode estar embasada em outra dimensão sustentável: um negócio social – social enterprise (SE), do termo em inglês. Mas em que consiste esse modelo de negócio, quais as vantagens e como implementá-lo?

De acordo com pesquisadores da área, como Frank Boons, do Departamento de Administração Pública da Universidade de Roterdã, na Holanda, e Florian Lüdeke-Freund, do Centro de Gestão em Sustentabilidade, da Universidade Leuphana de Lüneburg, na Alemanha, a premissa para esse modelo de negócio é pensar na autossustentabilidade ao invés da maximização de lucros, concentrando esforços, seja no desenvolvimento de serviços ou produtos, que contribuam com questões sociais, que tenham como propósito amenizar problemas sociais urgentes e emergentes em dada comunidade. E isso não exclui o uso da tecnologia, mas diz respeito mais a inovações sociais que forneçam soluções (tecnológicas ou não) para problemas de outros, ou seja, de grupos sociais que não possuem recursos ou capacidades para se ajudarem.   

Os negócios sociais também são chamados de empresas sociais, empresas 2.5, empresas BoP (Base da Pirâmide) ou negócios inclusivos. BoP é um termo cunhado pelos autores C. K. Prahalad e Stuart L. Hart, no livro Fortune at The Bottom of The Pyramid (Fortuna na Base da Pirâmide, tradução literal do inglês), de 2002, trazendo a perspectiva de que os negócios podem operar com base em um capitalismo inclusivo e de valor mútuo, ou seja, conciliando lucratividade e vantagem competitiva enquanto ajudam a reduzir a pobreza e geram impacto social junto às classes mais vulneráveis da sociedade (como a C, D e E, no Brasil). 

Na capital gaúcha, as Empreendedoras Restinga são um exemplo de associação empresarial com base social. Não se trata apenas de uma empresa pensando na dimensão social do seu negócio, mas várias pequenas empresas trabalhando juntas para mudar a realidade da sua comunidade. A Restinga é um dos maiores bairros de Porto Alegre, com mais de 60 mil habitantes e uma população majoritariamente feminina. 

De acordo com o último censo do IBGE (2010), o bairro abriga moradores com um rendimento médio de 2,10 salários mínimos, ou seja, de baixo poder aquisitivo quando comparado à média municipal de rendimento por domicílio, que é de 5,29. Grande parte do bairro é formado por conjuntos habitacionais erguidos pelo poder público. Essa realidade contribui para alimentar estereótipos sobre o bairro, suas pessoas e seus negócios na sociedade porto-alegrense, sendo visto como violento e sem boas oportunidades e qualidade, o que desfavorece o desenvolvimento local.

As Empreendedoras Restinga resolveram então se unir e encarar essa realidade, a fim de transformá-la. “Eu comecei a perceber que o meu negócio sofria preconceito dos clientes por ser na Restinga. Então, conversei com umas outras amigas empreendedoras locais, e elas relataram sentir o mesmo. Decidimos, então, nos organizar para valorizar os serviços e produtos oferecidos aqui, mostrando a qualidade do que nossa comunidade faz”, conta Roberta Capitão, uma das fundadoras e, hoje, presidente da Associação Empreendedoras Restinga.  

O objetivo das Empreendedoras é desenvolver a comunidade local, em especial, os pequenos negócios liderados por mulheres, de forma a fortalecer sua independência financeira, movimentar a economia local e, juntas, mudarem essa visão social sobre o bairro. “Inicialmente, contávamos com palestras e eventos. Hoje, realizamos mentorias de Marketing e Vendas e já temos também nossa própria multifeira, que acontece todo domingo, na qual valorizamos o artesanato, nossa cultura e produtos de alimentação das empreendedoras. Somos, atualmente, 95 associadas. A criação dessa rede só impulsionou o nosso trabalho e desenvolvimento, com compartilhamento de conhecimento e experiências, empoderando a nossa força feminina que sempre existiu e é representativa, porém, até então, com pouca expressividade na sociedade”, destaca Roberta. 

A exemplo da rede formada pelas Empreendedoras Restinga, o pesquisador gaúcho Eugênio Pedrozo, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), já conduziu estudos sobre a Base da Pirâmide em seu estágio 3.0, isto é, reconceituando a pobreza de uma perspectiva tradicional baseada na renda para uma visão mais ampla, complexa e de natureza multidimensional, e aponta direções estratégicas para inovar em uma empresa com base na fixação da dimensão social como a principal característica. 

Parcerias intersetorias e formação de redes, habilidades e conhecimentos compartilhados por pequenos produtores, apropriação de valor por pequenos produtores para produtos e serviços destinados à Base da Pirâmide, relacionamento direto com as partes interessadas e desenvolvimento sustentável em modelo bottom up, ou seja, ascendente, da base para o topo, são algumas condicionantes de uma inovação empresarial que visa à BoP. 

“O mais importante no negócio social é fixar a dimensão ou o propósito social como o mais importante, ou seja, condicionar as decisões e as escolhas estratégicas da organização ao atingimento do propósito social. Isso significa que a dimensão econômica, que é central em outras organizações, não é o foco central nesta. Não significa que a organização não inclua a análise da dimensão econômico-financeira, mas ela não é a mais importante”, pontua Eugênio. 

Pensar em uma inovação sustentável para sua empresa em nível social em pleno século XXI é, portanto, pensar em como promover a dimensão social mais do que a econômica. E esse acaba sendo também o maior desafio. “Conciliar o equacionamento da prioridade do propósito social com o econômico-financeiro não é tarefa fácil. Por isso, em um bom número de casos, tende a vencer pensar primeiro no resultado econômico-financeiro. Para ultrapassar esse quesito, existe a necessidade de um maior grau de criatividade, ou seja, ‘pensar fora da caixinha’ em soluções diferentes das tradicionais. Quando se consegue equacionar isso, obtém-se uma grande vantagem, que é uma maior motivação e envolvimento dos colaboradores”, complementa Pedrozo. 

Para colocar em prática o seu negócio social, seja criando-o do zero ou transformando seu modelo de atuação, é só começar pela reflexão de tudo que falamos aqui. O SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) também organizou uma cartilha sobre negócios sociais para dar apoio à implementação de novos modelos de negócios embasados socialmente. Acesse aqui e seja parte da mudança que você quer ver no mundo. 

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