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Dia da Avicultura: ‘São Marcos tem uma das licenças de operação mais caras da Serra Gaúcha’

Revisão da lei que elevou taxa foi pedida à Câmara. Estudo inédito revela custo de produção do peru. Avicultores apontam falta de incentivos no município que já teve superfaturamento de terraplenagem. Casal ‘iniciador’ da Santana ganhou prêmio regional e avicultor ‘terminador’ de São Roque integra comissão intermunicipal. Confira na reportagem especial

Neste sábado (28) se comemora o Dia Nacional da Avicultura. Em São Marcos os produtores têm motivos não só para comemorar, mas também para reivindicar: o município possui uma das taxas de licença ambiental para operação de aviários mais caras da Serra Gaúcha. E as lideranças políticas não parecem muito dispostas em rever a lei que em 2014 aumentou o tributo, gerando mais arrecadação aos cofres públicos e menos lucro aos produtores.

“O maior problema dos avicultores são-marquenses é o licenciamento ambiental. É muito caro, um dos mais caros da região”, assinala o avicultor Juliano Boff, destacando que já houve pedido para a lei promulgada que entrou em vigor em 2015 ser revista.

Conforme a presidente do Sindicato dos Trabalhadores Agricultores Familiares de São Marcos (STAF), Sandra Meneguzzo, a demanda foi levada à Câmara de Vereadores neste começo de ano.

“Solicitamos uma revisão da lei, mas até agora não tivemos nenhuma resposta”, declarou.

Diante da inércia dos vereadores, a presidente do STAF disse que irá se reunir novamente com o prefeito e o Secretário de Meio Ambiente para buscar uma solução.

“O valor dessa taxa paga pelo avicultor fica com o Meio Ambiente e eles precisam pelo menos dizer o que está sendo feito com esse recurso. Teria que mexer, pois é injusto esse valor tão alto. Se eles dizem que não dá pra mexer porque já é lei, então que pelo menos o agricultor fique sabendo pra que é usado. Gostaríamos que tivesse essa transparência”, reivindica, ressaltando que o valor precisaria ser revertido para a agricultura, setor que possui a menor dotação orçamentária entre as secretarias da prefeitura: R$ 1,1 milhão em 2021, conforme a LOA (Lei Orçamentária Anual).

Assunto abordado durante a campanha eleitoral, a elevada taxa paga pelos avicultores para poderem trabalhar não poderia ser diminuída porque o TCE apontaria renúncia de receita, segundo justificou o prefeito.

“Se não pode revisar a lei e baixar a taxa, pode aumentar os benefícios ao setor”, pondera a presidente do STAF.

Sandra diz que em Nova Roma do Sul, município da Serra que possui diversos aviários (Farroupilha e Caxias são os maiores produtores avícolas da região), o valor da taxa é 30% da de São Marcos. Ela explica que o valor depende da capacidade do aviário e ressalta que o setor possui relevância econômica, sendo uma das principais atividades desempenhadas pelos agricultores são-marquenses depois da uva e do alho. A Secretaria de Agricultura não informou o número de avicultores que atuam no município, mas entre criadores de peru e frango são dezenas.

‘A Força da União’: estudo inédito levanta custo de produção do peru e do frango

Avicultor Juliano Boff de São Roque e Sandra Meneguzzo, presidente do STAF em programa de rádio do jornalista André Fontana. Imagem cedida.

Para resolver o problema do elevado preço pago pelos avicultores são-marquenses com a Licença de Operação, Sandra Meneguzzo e Juliano Boff apostam na “força da união”.

“Quando o agricultor procura o Sindicato a gente fica sabendo onde está o problema e a coisa flui. No que recebemos a demanda já passamos pra Fetag (Federação dos Trabalhadores da Agricultura), que está fazendo um estudo inédito sobre o custo de produção do peru e do frango. Somos os primeiros do Brasil”, revela Sandra.

“A união faz a força. Em Nova Roma teve recentemente 80 criadores que se reuniram na Linha Castro Alves. A empresa viu que estamos organizados. Porque se vai sozinho vira questão pessoal e se vai uma meia dúzia não resolve. O agricultor tem que se unir e sair de casa. Só reclamar na rede social pouco adianta”, pondera Juliano Boff.

O avicultor destaca o apoio do STAF.

“Com outros presidentes não tivemos o apoio que estamos tendo agora com a Sandra. Isso é fundamental, porque no início a gente não sabia como agir: somos criadores de peru, sabemos lidar com parreira; mas não entendemos de planilhas de custo e fomos buscar isso junto ao Sindicato. A Sandra nos levou à Fetag e tudo foi se amarrando para ter um bom desenvolvimento”, assinala.

Boff conta que foi criada uma comissão com representantes de diversos municípios da Serra integrados à JBS.

“Teve uma Lei Federal que entrou em vigor em 2018 que não estava sendo bem utilizada. Formamos essa comissão e a primeira reunião foi em São Marcos no posto Nova Era. Participaram criadores da região e foi formada a comissão. Fui um dos primeiros indicados, porque fui um dos que começou com a criação desses grupos”, conta, citando os demais integrantes. “Tem o Rudimir Rech de Pedras Brancas, o Edson Bauer de Caxias, o Gabriel Corso de Antonio Prado, a Ivone mendes de Flores da Cunha, o Rdrigo Vanxin e o Valcir Pauletti de Nova Roma e o Michel Zimermann de São Vendelino. Então tem gente de várias parte da integração. É uma união bem forte que se tornou também uma amizade de se conversar todo dia. Porque não adianta ter um grupo pequeno e não ter apoio de outros produtores”, pondera.

‘Tem município que devolve 50% do ICMS e dá até o telhado do aviário’: Lei de Incentivo à Avicultura já foi superfaturada em São Marcos

Morador de São Roque, região que possui diversos aviários, e membro de uma comissão regional (Cadec), Juliano Boff pondera que em outros municípios há mais incentivos por parte da prefeitura.

“Como estou nessa luta com pessoas de outros munícios, vejo prefeituras devolvendo 50% do ICMS aos produtores. São Vendelino dá a terraplenagem e até o telhado do aviário”, revela.

Em São Marcos os avicultores têm incentivo pra fazer terraplenagem através da Lei de Incentivo à Avicultura, que concede um percentual pago pela prefeitura. Ela já foi mal utilizada: há alguns anos avicultor da Linha Ilhéus teve caso de superfaturamento de horas-máquina em sua propriedade. Após denúncia de vereadores, o Ministério Público instaurou inquérito para apurar Improbidade Administrativa. Foram incriminados o Secretário de Agricultura e o dono da empresa de Terraplenagem, que tiveram que pagar multa. Mas o proprietário acabou sendo inocentado.

Na visão do avicultor Juliano Boff, seria preciso não só fiscalizar melhor, mas também aumentar os incentivos

“Ainda mais agora que os custos aumentaram e a lucratividade não está tão boa como uma vez”, comenta, destacando que “criar peru já foi bem melhor”.

Ele diz que o auge da avicultura ocorreu há alguns anos: “Na época da Doux dava pra ganhar dinheiro”, aponta.

Integrado à Seara/JBS, Boff lembra que quando a empresa francesa que comprou a Frangosul faliu, a Marfrig assumiu.

“Mas ficou só uns dois anos no mercado e não aguentou, vendendo para a JBS. Daí em diante se passaram mais de cinco anos e nossos ganhos ainda são os mesmo. Os insumos aumentaram bastante e não foi repassado”, salienta.

Boff revela que o avicultor fica com 7,5% do que produz.

“Eles fornecem a ração e nossa parte é a produção”, explica, afirmando que atualmente a uva está melhor. “Por mais mal que vá, a uva tá melhor que o peru”, assegura o agricultor que além dos três aviários possui três hectares da variedade Bordô.

A presidente do STAF ressalta que a avicultura é uma atividade que exige bastante trabalho e por isso precisa dar um bom rendimento para “valer à pena”.

“Não tem feriado e final de semana, é tipo vaca de leite. Por isso sempre digo que quem cria é corajoso”, aponta Sandra Meneguzzo.

Um dos mais importantes setores do agronegócio brasileiro, a avicultura responde por mais de 3,5 milhões de postos de trabalho, com participação de 1,5% do PIB nacional, conforme dados da CIDASC, de Santa Catarina, segundo maior produtor avícola do país, atrás do Paraná e a frente do Rio Grande do Sul. O Brasil é o maior exportador mundial e terceiro maior produtor de carne de aves, que teve crescimento de 5,2% nas vendas externas neste primeiro semestre, segundo a ASGAV (Associação Gaúcha de Avicultura).

Terminação em São Roque e iniciação na Santana: avicultores de São Marcos se destacam na região

Queila e Vanderlei com prêmios recebidos em junho. Arquivo pessoal

Agricultor familiar, Juliano Boff trabalha com a esposa Angelis Araújo. O casal de avicultores tem duas filhas, de 13 e 8 anos. A criação de perus (terminação) é a principal fonte de renda da família.

“Fizemos a parte da terminação. Recebemos os perus com uns 35 dias e criamos até uns 150 dias. O bicho chega com menos de 2 Kg e sai com mais de 22 Kg em média”, revela, informando que faz em torno de dois lotes e meio por ano.

Conforme Juliano, cada lote tem 11 mil perus. O aviário possui 3.640 metros quadrados, de modo que são três perus por metro. Cada um consome em torno de 1 litro de água por dia e o consumo chega a 11 mil litros diários. A fonte precisa ser protegida, geralmente poço artesiano, pois 90% da carne é exportada e as exigências são grandes.

“Os perus fazem uma barulheira que só vendo. E depois dos 140 dias ficam meio nervosos, dão umas bicadas, porque chegam na fase adulta e querem reproduzir. Ainda mais agora que está chegando a primavera e os dias estão aumentando. Quando vai pro inverno ficam mais calmos”, detalha.

Ele conta que o sistema de criação é bastante mecanizado.

“A ração, o ventilador e o nebulizador são automatizados. Mas tem que estar sempre em cima e ficar de olho”, salienta.

É o que dizem, também, os avicultores da Linha Santana Queila Spigolon e Vanderlei Durande. Premiado em junho por ter obtido a menor taxa de mortalidade (2,2%) entre todos os produtores integrados da JBS na região de Caxias, o casal da Linha Santana destaca que o trabalho inicia “antes de clarear o dia”.

“Ali pelas 5h a gente liga a luz e começa a estimular os pintinhos com um balde com a ração. Quanto mais incentivar a comer e tomar água, mais fortes ficam e menos doença dá”, ensina Vanderlei, ressaltando que o serviço não para: “Tem um intervalo entre um lote e outro de 10 a 20 dias. Mas nesse tempo já se trabalha na preparação do próximo lote, então não para nunca”, assinala.

Queila conta que recebe os perus no dia em que nascem: “Os pintinhos ficam uns 35 dias e vão para o terminador com mais de 1,5 Kg”, informa.

Em relação ao prêmio recebido – troféu, brinde e valor em dinheiro -, Queila destaca que ele homenageia o cuidado dos produtores.

“Com menor mortalidade todo mundo ganha”, pondera a avicultora de 33 anos que há mais de 12 trabalha na criação de aves. “Me criei na fruticultura com meus pais Luis Spigolon e Deusina Chinelatto Spigolon, mas depois fui pra avicultura”, conta Queila.

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