São Marcos e Campestre fora do caminho; como a ERS-122 redesenhou a Serra Gaúcha e isolou a BR-116
A consolidação da ERS-122 ao longo dos anos, o redirecionamento oficial do tráfego e a falta de reação local contribuíram para o isolamento gradual de São Marcos e Campestre da Serra, enquanto municípios do outro lado do Rio das Antas avançaram em visibilidade e desenvolvimento.
Placa oficial às margens da BR-116 orienta motoristas a acessar a ERS-122 em direção a Antônio Prado e Caxias do Sul, exemplo da sinalização que redireciona o fluxo de veículos para fora do eixo São Marcos–Campestre da Serra. Foto: São Marcos Online.
Por décadas, a BR-116 foi uma das principais artérias de ligação da Serra Gaúcha com o restante do Rio Grande do Sul. O fluxo constante de caminhões, ônibus e veículos de passeio moldou a economia de municípios cortados pela rodovia federal, entre eles São Marcos e Campestre da Serra. Postos de combustíveis, restaurantes, borracharias e pequenos hotéis surgiram às margens do asfalto, impulsionados por um movimento que parecia eterno.
Esse cenário começou a mudar com a consolidação da ERS-122.
Mais do que uma nova rota, a 122 redesenhou silenciosamente o mapa da Serra. Ao concentrar investimentos, sinalização e incentivos institucionais, a rodovia estadual passou a canalizar o tráfego de longa distância, inclusive turístico, deixando a BR-116 em segundo plano. O resultado, sentido ao longo dos anos, foi um processo gradual de esvaziamento econômico e simbólico de cidades como São Marcos e Campestre da Serra.
Um desvio que virou regra
A reportagem do São Marcos Online percorreu o trecho da BR-116 entre São Marcos e o trevo com a ERS-122, em Campestre da Serra, instigada pelo relato de um comerciante que mantém restaurante às margens da rodovia federal, e reclama do direcionamento das placas para a 122. O que se vê ao longo do caminho confirma o diagnóstico feito por quem vive da estrada: movimento reduzido, paradas mais espaçadas e uma sensação constante de que o fluxo “passa longe”.
Nos acessos a Caxias do Sul e Vacaria, placas em excesso orientam motoristas a seguir pela ERS-122, indicando Ipê, Antônio Prado, Flores da Cunha e, mais adiante, Gramado e Canela, inclusive. Cidades que estão mais próximas via BR-116. Na prática, a sinalização oficial induz o tráfego a abandonar a BR-116 muito antes de alcançar São Marcos ou Campestre da Serra.
Os aplicativos de navegação reforçam esse comportamento. Testes realizados pela reportagem mostram que tanto o Google Maps quanto o Waze indicam automaticamente a ERS-122 como rota prioritária, mesmo quando o trajeto pela BR-116 é viável. Ainda que o caminho seja mais longo até Caxias do Sul, a lógica algorítmica, alimentada por dados de fluxo e infraestrutura, repete o direcionamento institucional.
Na BR-116, ao chegar ao trevo com a 122, em Campestre da Serra, a sinalização se limita a indicar a quilometragem até São Marcos. Nenhuma menção a atrativos, rotas alternativas ou possibilidades turísticas. O recado é claro: siga em frente, ou melhor, desvie.
Do outro lado do rio, o desenvolvimento
Enquanto São Marcos e Campestre da Serra absorviam, quase sem reação, os efeitos desse redesenho viário, o outro lado do Rio das Antas florescia. Municípios como Ipê, Antônio Prado e Flores da Cunha passaram a integrar de forma definitiva o imaginário turístico da Serra Gaúcha, beneficiados não apenas por políticas locais, mas por um conjunto de incentivos estruturais.
A ERS-122 tornou-se mais do que um corredor logístico: virou uma vitrine. Restaurantes temáticos, vinícolas, pousadas, parques e empreendimentos turísticos se multiplicaram ao longo da rodovia, impulsionados por visibilidade, fluxo constante e sinalização eficiente.
Não se trata apenas de potencial, trata-se de presença.
Do lado da BR-116, especialmente no trecho que margeia o Rio das Antas, o cenário natural é igualmente rico. Há paisagens, história, tranquilidade e um charme rural que poderia atrair viajantes em busca de experiências menos óbvias. Ainda assim, essa Serra segue fora do caminho.
Isolamento absorvido e a inércia local
Ao longo dos anos, o impacto da perda de fluxo foi sendo absorvido de forma quase silenciosa. Negócios fecharam ou se reinventaram, postos reduziram equipes, restaurantes passaram a depender mais do público local do que dos viajantes. O turismo, que sempre foi modesto em São Marcos e Campestre da Serra, jamais ganhou escala suficiente para compensar a queda do tráfego.
Parte desse cenário se explica pela falta de reação institucional. Governos municipais, lideranças políticas e entidades ligadas aos setores econômicos pouco se mobilizaram para disputar visibilidade, sinalização ou projetos estruturantes. Enquanto o Estado e a União “apontavam o caminho” para a ERS-122, o lado da BR-116 dormia, literalmente.
Não houve campanhas regionais, pressão por sinalização turística, nem uma estratégia clara para reposicionar os municípios como alternativa de passagem, parada ou destino. O isolamento, assim, deixou de ser apenas consequência e passou a ser, em certa medida, escolha.
Ainda dá tempo de mudar o caminho?
A pergunta que se impõe não é apenas o que foi perdido, mas o que ainda pode ser feito.
Especialistas em turismo e desenvolvimento regional apontam que rotas alternativas, quando bem comunicadas, podem se tornar atrativos por si só. Sinalização temática, valorização da gastronomia local, divulgação de paisagens e experiências ligadas ao Rio das Antas são exemplos de ações possíveis, e relativamente simples.
Mais do que grandes obras, trata-se de decisão política, articulação regional e vontade de disputar espaço no mapa mental de quem viaja pela Serra Gaúcha.
A ERS-122 dificilmente deixará de ser o principal corredor. Mas a BR-116 não precisa seguir invisível.
Entre o comodismo e a oportunidade, São Marcos e Campestre da Serra ainda têm um caminho a escolher. A estrada continua lá. Falta, talvez, voltar a apontá-la como destino, e não apenas como distância em uma placa.













