Pela primeira vez em cerca de 90 anos de história, a tradicional Festa Nacional da Uva, em Caxias do Sul, terá distribuição oficial de uva orgânica ao público. O marco histórico nasce de uma iniciativa apresentada por uma produtora de São Marcos: Carla Rodrigues Dal Prá Suliani, referência regional na viticultura orgânica e integrante ativa do movimento agroecológico da Serra Gaúcha.
A distribuição ocorrerá no dia 26 de fevereiro, nos Pavilhões da Festa da Uva e também no Desfile Cênico, dentro da programação dedicada à produção orgânica e à agroecologia. No mesmo dia, será lançado o PNAE Agroecológico, ampliando o debate sobre alimentação saudável e fortalecimento da agricultura familiar.
Uma ideia que saiu do interior e chegou ao maior palco da vitivinicultura gaúcha
A proposta começou a ser construída em 30 de outubro de 2025, em um almoço entre Carla, o marido Vanderlei e o secretário municipal da Agricultura de Caxias do Sul, Rudimar Menegotto. Carla apresentou formalmente um projeto defendendo a inserção da uva orgânica na festa.
“Eu pensei: por que não tem orgânico na Festa da Uva? Está na hora. A festa tem visibilidade nacional. Precisamos abrir espaços para o nosso mercado”, relata Carla.
A confirmação veio em 17 de dezembro, quando a Secretaria oficializou que a ideia havia sido aceita. Em janeiro, foram definidos volumes e valores. A partir daí, iniciou-se a logística de entrega.
Até o momento, Carla já levou três toneladas de uva orgânica para Caxias e deverá completar aproximadamente quatro toneladas.
O movimento orgânico ganha espaço em um evento de 130 toneladas
A Festa da Uva distribuirá cerca de 130 toneladas da fruta em 2026. Desse total, aproximadamente oito toneladas serão orgânicas, um percentual ainda pequeno, mas simbólico e estratégico.
“Do nada para um percentual é um excelente começo. Agora ninguém segura. Outros viticultores vão ficar atentos a esse movimento”, afirma Carla.
Segundo o engenheiro agrônomo da SMAPA, Dalcionei Pazzin, a menor oferta orgânica se deve aos desafios de certificação e escala. Já o secretário Rudimar Menegotto reforça que a iniciativa representa avanço institucional:
O movimento iniciado a partir da sugestão de Carla é pioneiro e abre caminho para ampliar a presença da produção orgânica nas próximas edições da festa, valorizando agricultores que optam por sistemas sustentáveis.
Os produtores envolvidos nesta edição incluem:
- Lori Rossi (Caxias do Sul)
- Vítor Augusto Pistorello (Caxias do Sul)
- Carla Rodrigues Dal Prá Suliani (São Marcos)
O valor pago é de R$ 6,50 por quilo, dentro da política de incentivo à produção diferenciada.
Protagonismo técnico e institucional
Carla não é apenas produtora. Ela integra o Comitê de Ética do Núcleo Serra Gaúcha da Rede Ecovida, participa da ECOCAXIAS e é representante suplente na Comissão de Produção Orgânica do RS (CPORG). Em São Marcos, atua no grupo Aproces, que reúne três viticultores comercializando uvas orgânicas para:
- São Paulo
- Região Metropolitana de Curitiba
- Litoral de Santa Catarina
“Produzir é possível. O desafio é mercado. A gente precisa se mostrar, falar sobre o produto, visitar clientes, construir canais.”
Ela também desenvolveu pesquisa sobre mercado durante o mestrado e apresentará o case da Festa da Uva no 1º Congresso Brasileiro Técnico-Científico de Agricultura Orgânica, em março, em Campinas (SP).
“Vou levar essa história que muda um evento nacional. É um case de construção de mercado.”
Orgânico x Agroecologia: o que está em jogo
A distribuição da uva orgânica estará vinculada ao lançamento do PNAE Agroecológico, iniciativa que busca avaliar e fortalecer a transição agroecológica da base produtiva local, promovendo alimentação mais saudável nas escolas.
Importante destacar a diferença conceitual:
Produção orgânica: substitui insumos químicos por naturais, seguindo certificações rigorosas.
Agroecologia: visão sistêmica que integra sustentabilidade ambiental, biodiversidade e aspectos sociais.
A presença da uva orgânica na festa dialoga diretamente com essa transição produtiva.
Uma estratégia de posicionamento e mercado
Carla é direta ao explicar que o objetivo nunca foi apenas vender:
“Minha ideia não era nem tanto vender, mas abrir espaço, trazer essa discussão, essa vitrine.”
A produção orgânica exige reputação, rastreabilidade e relacionamento:
“As pessoas querem saber quem é o produtor, onde é a produção, há quanto tempo está no mercado. A gente constrói marca há anos.”
A marca Suliani Orgânicos já é reconhecida em mercados estratégicos. Estar na Festa da Uva amplia essa exposição:
“Quem compra nossa uva em São Paulo e ouve falar que tem orgânico na Festa da Uva vai saber que estamos lá também.”
Impacto regional: o cenário dos orgânicos na Serra Gaúcha
A Serra Gaúcha possui produção orgânica expressiva, mas enfrenta:
- Mercados retraídos
- Dificuldade de ampliação de canais
- Necessidade constante de educação do consumidor
Carla destaca que muitos produtores têm capacidade de aumentar a produção, mas não o fazem por insegurança comercial.
A inserção na Festa da Uva representa:
- Validação institucional
- Visibilidade nacional
- Fortalecimento do movimento agroecológico
- Estímulo para novos produtores migrarem ao sistema
Um marco histórico o evento e toda região
Depois de nove décadas, a Festa da Uva passa a incorporar oficialmente o orgânico em sua distribuição pública. O gesto é simbólico, político e econômico.
E tem origem clara: uma produtora que decidiu provocar o sistema.
“Isso é marcar a história da festa. Nunca antes teve.”
Para São Marcos, o fato também é estratégico: uma iniciativa local altera o roteiro de um dos maiores eventos da vitivinicultura brasileira.
A partir de 2026, a Festa da Uva não será mais apenas vitrine da produção convencional, passa a ser também palco da agricultura orgânica da Serra Gaúcha.


