Quando Miguel Arcanjo Ferreira de Lima, 66 anos, percebeu que a situação estava ficando fora de controle, ele e a esposa, Rosa Macedo de Lima, 65, estavam dentro da própria casa tentando retirar a água que começava a invadir os cômodos.
Era durante a intensa chuva que atingiu São Marcos, em 21 de setembro. Miguel retirava a água com um rodo enquanto Rosa fazia o mesmo do outro lado da casa. A cada trovão, segundo ele, pedras desciam do barranco localizado nos fundos da residência.
Até que veio um barulho diferente.
“Eu só vi um barulho assim atrás de mim. Veio a geladeira”, lembra Miguel.
O eletrodoméstico atingiu suas costas e o jogou para longe. Quando percebeu o que havia acontecido, ele estava com as pernas presas entre os destroços e pedia socorro.
Rosa também foi atingida pela movimentação da estrutura. Ela conta que estava dentro da casa e, quando percebeu, já estava na beira da rua, sob a cobertura da residência.
“Eu não sei te dizer que jeito. Não dá tempo de nada”, relata.
Presa entre madeiras, ela conseguia enxergar o marido, mas não conseguia gritar por socorro. Os bombeiros posteriormente constataram que ela estava em estado de choque.
Miguel sofreu uma fratura em um dos ossos da perna. Foi submetido a cirurgia e está com a estrutura fixada por parafusos. Segundo ele, a recuperação evolui bem, mas ainda sente dores e tem nova avaliação médica marcada para segunda-feira (5).
A casa que representava um recomeço
A destruição tem um peso ainda maior para o casal porque aquela casa representava a realização de um projeto construído durante anos.
Naturais de Bom Jesus, Miguel e Rosa chegaram a São Marcos em busca de trabalho. Miguel veio em 2007 para trabalhar com caminhão e posteriormente atuou durante anos na construção civil. Rosa trabalhou em empresas e também como cuidadora.
Depois de se aposentar, Miguel começou a juntar dinheiro para deixar o aluguel.
Segundo ele, recebeu cerca de R$ 57 mil referentes a valores atrasados da aposentadoria e decidiu investir na construção da própria casa. O terreno já havia sido adquirido.
A residência tinha pouco mais de um ano, mas o casal havia se mudado para o local havia apenas cerca de dois meses.
“Eu falei: ‘vou fazer uma casinha pra sair do aluguel’”, conta.
Agora, o que deveria representar estabilidade virou uma dívida e uma casa destruída.
Miguel relata que precisou contratar dois empréstimos bancários, de aproximadamente R$ 16 mil e R$ 20 mil, e continua pagando as parcelas mesmo sem ter mais a residência.
“Estou pagando sem ter a casa”, resume.
Quase tudo foi perdido

O deslizamento destruiu praticamente toda a parte construída da residência. Segundo o casal, paredes, banheiro, móveis e grande parte dos pertences ficaram soterrados ou foram danificados.
Entre os objetos perdidos está uma máquina de costura utilizada por Rosa, avaliada pelo casal em cerca de R$ 6,5 mil.
Alguns pertences, entretanto, foram recuperados. Roupas, roupas de cama e pequenos utensílios conseguiram ser salvos. A geladeira que atingiu Miguel ficou amassada, mas continua funcionando.
Atualmente, parte dos móveis utilizados pelo casal é emprestada.
Assistência Social acompanha o casal
Procurada pelo São Marcos Online, a Secretaria de Assistência Social, Trabalho e Habitação informou que Miguel e Rosa estão sendo acompanhados pela equipe técnica do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS).
Segundo a pasta, o casal foi realocado em um imóvel e recebeu orientação sobre os Benefícios Eventuais ofertados pelo Município.
Também houve o deferimento de Aluguel Temporário, medida que garante apoio para a moradia neste período de emergência.
O acompanhamento ocorre enquanto o casal tenta reorganizar a vida depois da perda da residência.
“Eu não tenho nem plano de construir mais”
Apesar da assistência recebida, Miguel afirma que não consegue pensar, neste momento, em reconstruir a casa.
Segundo ele, continuam as parcelas dos empréstimos contraídos para a construção da residência. O casal, ambos aposentados, também precisa lidar com os danos materiais provocados pelo deslizamento.
“Eu não tenho nem plano de construir mais”, afirma.
A frase resume a dimensão da perda para quem havia trabalhado durante anos para finalmente deixar o aluguel.
O trauma continua
Além da perda material, Miguel e Rosa ainda convivem com as consequências emocionais do episódio.
Miguel conta que, enquanto estava preso entre os destroços, conseguia observar pedras descendo do barranco e temia que a própria casa viesse abaixo sobre ele.
Dias depois, uma situação aparentemente banal trouxe novamente a lembrança do deslizamento.
“Ontem de noite fui trocar aquela lâmpada ali. Quando eu ergui a cabeça pra olhar pra cima, eu vi tudo aquilo de novo”, relata. Segundo ele, acabou caindo sobre uma cadeira.
Rosa também ainda tem dificuldade para falar sobre o momento. Durante a entrevista, ela relata não conseguir explicar como foi parar fora da casa e lembra que ficou sem conseguir pedir socorro.
Campanha busca ajudar o casal
Diante das perdas, familiares e pessoas próximas iniciaram uma campanha de solidariedade para ajudar Miguel e Rosa a reconstruírem a vida.
O material divulgado pela família informa que o casal perdeu a casa e grande parte dos pertences e pede contribuições de qualquer valor.
A campanha utiliza o seguinte PIX:
Chave PIX: 54996318618
Nome: Rosa Macedo de Lima
Além das doações, a família pede que a campanha seja compartilhada por quem não puder contribuir financeiramente.
Para Miguel e Rosa, o desafio agora é reconstruir, aos poucos, aquilo que foi levado pelo deslizamento. A casa que levou anos para ser construída desapareceu em poucos minutos. O recomeço, desta vez, dependerá da combinação entre a assistência pública e a solidariedade da comunidade.



