Entre a poda e a amarração: a tradição que brota na Linha Rosita
Em quatro hectares de parreirais, Alcides e Celi Meneguzzo cultivam uvas com dedicação e sabedoria, preservando práticas que conectam gerações no interior de São Marcos.

O casal Meneguzzo também conhecido como rituais populares — da poda influenciada pela lua à adubação consciente — ao legado rural que move a viticultura de São Marcos. Foto: São Marcos Online.
São Marcos (RS) vem se consolidando como um dos pilares da viticultura gaúcha. Com cerca de 1.088 hectares plantados, o município é um dos destaques na produção de uvas — principalmente para suco natural. Na última safra, foram produzidos aproximadamente 24,35 milhões de quilos de uvas, sendo 23,92 milhões de quilos de uvas comuns e 427 mil quilos de uvas viníferas, segundo dados da Uvibra. Boa parte desse volume alimenta a indústria de sucos, verdadeiro carro-chefe da região. Em 2022, São Marcos atingiu 25,5 mil toneladas de produção, figurando como o décimo maior produtor de uvas no estado.
No cenário estadual, o Rio Grande do Sul responde por cerca de 90% da produção nacional de uvas, destinadas a sucos, vinhos e espumantes — em especial na Serra Gaúcha. Para a safra de 2025, a expectativa estadual é promissora: a colheita deverá alcançar 700 mil toneladas, um aumento de quase 46% em relação ao ano anterior, reflexo de condições climáticas mais favoráveis e menor incidência de doenças. É neste contexto de crescimento e desafios que se encontra o parreiral dos Meneguzzo, na Linha Rosita — 4 hectares trabalhados com amor, sabedoria e um toque de humor que só a convivência com a terra pode proporcionar.
Alcides e Celi Meneguzzo: entre parreirais e a revitalização da tradição
Ele, com 72 anos e ela, com 70, cultivam Isabel em sua maioria, com pitadas de Niágara e Bordô. "Hoje a gente tá amarando porque... a lua tá muito ruim", confessa Alcides, sintetizando em poucas palavras a proximidade entre tradição e prática agrícola. A poda e amarração, como sabem os produtores locais, não são apenas técnicas — são rituais que alinham planta, tempo e cultura.
Na safra anterior, houve lucro: “ganhamos dinheiro… pagamento praticamente à vista”. Já neste ano, apesar da queda no preço, os insumos se mantiveram estáveis, alimentando uma esperança fundamentada no manejo cuidadoso e estratégico: “fizemos a adubação ali atrás… para colher uma boa safra”, dizem, com orgulho e olhos no futuro. Para eles, cultivar não é apenas subsistência: “se viver só da aposentadoria não dava, eu ainda quero trabalhar… sair daqui só quando Deus me levar.” A conversa flui leve, quase poética, quando Alcides brinca sobre registrar seu labor pelos “cem anos” — “pode renovar… maravilha” — como se tivesse escrito um contrato vitalício com a terra.
O que acontece em 4 hectares de parreira reverbera na economia e cultura local. São Marcos produz suco de uva natural em larga escala — o maior do país. Vinhos artesanais, eventos como a Fenasuco, e a valorização do produtor familiar reforçam a identidade dessa terra. A importância do agricultor é lembrada por quem entende seu valor:
Desafios e esperanças: da adversidade à colheita promissora
A última safra enfrentou clima adverso; excesso de chuvas, doenças fúngicas, geadas e granizo provocaram quebras significativas. Ainda assim, o quadro para 2025 se mostrou mais otimista para a Serra Gaúcha: a Emater projeta um aumento de até 55% na produção da região, graças à sanidade observada nas bagas e ao manejo mais aprimorado. A colheita foi oficialmente aberta, simbolizando uma retomada vigorosa e restauradora.
O parreiral da família Meneguzzo é pequena página num grande livro que é São Marcos — mas justamente por isso sua história emociona. A tradição se alia à técnica e ao desejo de continuidade. Há nessas quatro famílias de hectares um retrato fiel da viticultura familiar que move a Serra Gaúcha: feita de trabalho, astral, resistência e sonhos.
“Só saio daqui quando Deus me levar”, reafirma Alcides, entre lágrimas contidas e sorrisos. É este o legado que brota junto com cada cacho — ramo a ramo, safra após safra, perpetuando um vínculo eterno entre a terra, a falta de pressa e o amor pelo cultivo.
Funções e benefícios da poda das videiras
A etapa de poda seca, realizada entre julho e setembro no período de dormência, é fundamental para controlar o vigor e preparar a planta para a próxima safra. Muitas vezes os viticultores aproveitam a lua — fase lunar — para planejar a amarração das varas, método tradicional que busca melhores resultados, como Alcides menciona (“por causa que a lua tá muito ruim”). A amarração também ajuda a estruturar o cultivo para ventilação, exposição ao sol e aplicação de defensivos, principalmente em latadas.
Estudos com Niágara Rosada em estufa de plástico demonstraram que a poda precoce aliada à cobertura pode antecipar a maturação significativamente — até 32 dias mais cedo — e garantir preços até cinco vezes maiores em comparação com as técnicas tradicionais em campo aberto. Ainda que esse sistema exija maior investimento, ele representa uma alternativa para viabilizar ainda mais a produção familiar em pequenas áreas.